Almas de Luz – 01

O fantasma de Ohio

A universidade de Ohio possui várias lendas sobre um de seus pavilhões ser mal assombrado. Pois em 1974 ela operou como um asilo chamado de Lunatic Asylum Atenas, onde foram tratados os mais diversos tipos de pessoas, entre elas crianças e até veteranos de guerra, criminosos violentos e doentes mentais graves. Durante o tempo em que funcionou, ficou também conhecido por suas lobotomias, além de que muitos diziam ver fantasmas em todos os cantos. Mas um caso em específico deixou o Lunatic mais conhecido.
Foi quando uma paciente diagnosticada como louca fugiu de seu quarto. Seis semanas após o ocorrido, seu corpo foi encontrado em decomposição em uma ala desativada do asilo. Ela se encontrava deitada no chão, sem roupas e em estado de decomposição já avançada, tanto que a marca donde o corpo foi encontrado existe até hoje. O asilo foi comprado na década de 90 pela faculdade, mas nunca foi utilizado.
Era noite e em frente à porta dos fundos encontravam-se três silhuetas iluminadas por uma fraca lanterna.

Voltando ao começo da manhã, uma garota atravessava as pressas o corredor. Seus longos cabelos negros, presos em uma simples trança, se mexiam com o vento enquanto. Ela corria, seu rosto era ofuscado por conta dos óculos de armação grossa. Ela carregava alguns livros antigos enquanto seguia em direção da sala. Mas sem que notasse era observada por alguém.
De uma distância segura William a observava. Estava esperando o momento certo para “atacar” sua vitima. É então que a garota acaba tropeçando e derrubando todos os livros, ele vê a chance, mas em questão de instantes ela já havia recolhido os livros e entrava em uma sala.
–Droga. Perdi a chance… – Sua feição era séria e resmungava baixo até alguém tocar-lhe o ombro. Um frio correu por suas veias antes de se virar e se deparar um de seus professores.
–Meu jovem, você não deveria estar aqui, é proibida a entrada de alunos. Você só pode andar por aqui se tiver permissão… Você tem essa permissão?- O homem estava serio, não esboçava nenhum sorriso ou expressão de felicidade.
–Desculpe pelos meus modos, estou à procura de um clube que tem por aqui. Eu tinha um folheto que eles colocaram no mural, mas acabei perdendo e só lembrava que era por aqui. – Ele tentava parecer estar encabulado enquanto sorria sem jeito para o professor, passava a mão sob os cabelos.
O professor continuava a sério, mas algo em sua feição começava a mudar. – Talvez você esteja procurando pelo grupo que pesquisa atividades paranormais? O grupo ‘dele’. – O professor engolia seco, estava suando frio, os movimentos de sua mão demonstravam a inquietação dele sobre o assunto.
– Grupo dele? – Uma confusão tomou conta da mente de Will, que não sabia ao certo se a garota tinha algum grupo, pois só havia visto ela poucas vezes pela faculdade. Mas aquela era sua única chance de descobrir se ela era daquele grupo ou não. – Sim, estou à procura do grupo de atividades paranormais. – Seu sorriso era falso, ele não sabia mentir direito, em sua mente só passava que ele precisava conquistar aquela garota.
–Ah… Sim… Sim – A inquietação se tornou mais clara, ele esfregava as mãos constantemente e não fazia mais contato visual com o rapaz, ele apenas olhava para o chão. – Por favor, me siga, irei te levar para a sala do grupo de atividades paranormais, e não conte para ele que eu te parei. – Antes de poder respondê-lo, eles já estavam em frente à porta da sala. O professor dá duas batidas e a abre. – Com licença, me desculpe pela intromissão, um aluno estava procurando por vocês e me pediu para trazê-lo aqui – Seus olhos corriam por toda a sala a procura de alguém. Próximo a uma mesa, estava Kristin. – Kristin, poderia cuidar do rapaz e apresentar ele ao seu chefe?
–Claro! Mande-o entrar. – Ela sorria para o professor, mas ao olhar para uma pilha de livro o sorriso some. Atrás da pilha de livros se encontrava o chefe do grupo, ela suspira e arruma seus óculos.
–Presidente, temos visitas… Se levante e vá cumprimentar e lhe dar as boas vindas.
Ao reparar que ele não estava ligando para situação, ela respira fundo e bate em um dos livros que estava na pilha.
O rapaz dá um pulo da cadeira e se levanta rapidamente. Em seu primeiro momento, a impressão que ele passava era de uma pessoa totalmente desleixada. Seus olhos estavam vermelhos, escondendo a cor azul, tinha olheiras, sua roupa estava toda amarrotada e seu cabelo negro parecia não ver um pente há meses.
–Kris, você queria me matar, não é? – Sua voz estava calma e sonolenta. Passava a mão sobre os olhos e tentava arrumar um pouco o cabelo, ele caminha em direção ao rapaz. Seu sorriso era gentil e acolhedor. – Olá meu jovem, o que lhe traz aqui? Será a nossa bela vice que fez com que você venha aqui? – Ele sorri para ela e manda um beijo, ele sabia que aquilo iria irritá-la. Mas como sempre ele nem ligou para a reação dela.
Aquela pergunta deixou o rapaz sem nenhum tipo de reação momentânea. – Não não,
claro que não, vim aqui para ajudar vocês. – Sua voz demonstrava o medo de descobrirem a
sua verdadeira intenção ali, a pergunta do presidente do grupo o deixava com mais medo ainda.
–Eu sei que era por isso, só fiz a outra pergunta para brincar com você e deixar ela irritada.
Ele começa a rir e passa a mão sobre o cabelo e seu olhar se torna sério, sua voz, que era diferente, se tornara ríspida.
–Muito prazer sou John o presidente do grupo de Atividades Paranormais e você é quem?
O professor olha para John e sai imediatamente da sala, aparentemente com medo. Will fica parado próximo à porta sem reação.
– Me chamo William, mas pode chamar de Will. Você já deve ter me visto, sou artilheiro do time de futebol, o galã de todas as mulheres. – Por um breve momento ele tentou brilhar, mas a “luz” do presidente era mais forte, deixando o rapaz sem jeito.
– Tudo bem, não me importo se joga ou não no time de futebol. Já que quer entrar para o grupo, nos encontre hoje as 23H00 na frente do Lunatic Asylum Atenas. É só isso, agora pode ir embora. – Ele dá as costas para o rapaz e volta para a cadeira em que estava dormindo, mas é parado por Kristin. Ela apenas o fitou com um olhar que o deixou paralisado, um olhar que dizia claramente “se você sentar ai, será um homem morto”.
Will estava feliz por ter sido aceito e ninguém desconfiar de seus verdadeiros intuitos. Ele estava um pouco confuso com o motivo de John ter feito aquele pedido. Todos na faculdade sabiam que aquele local era proibido e estava pensativo por causa disso.
– Kris, você quase me matou do coração batendo naquele livro! Não faça mais isso comigo, pelo amor de deus! Meu coração não aguenta isso.
Kris ria e se aproximava da garota, passando sua mão direita sobre o cabelo da garota.
– Acho melhor irmos – disse ele.
Ao senti-lo tocando em sua cabeça, ela fica vermelha e tira imediatamente a mão dele, dando uma resposta seca. – Sim, devemos ir, pois você não descansou nada essa noite, o que o diretor veio falar com você ontem que o deixou assim? Seu olhar demonstrava uma enorme preocupação com John.
–Não se preocupe Kris. Ele não disse nada demais… Você precisa ir para sua aula e eu para a minha. – Ele continuava a sorrir e levava novamente a mão na cabeça dela, mas dessa vez para bagunçar o seu cabelo.
Sem ligar pela tentativa dele de bagunçar o seu cabelo, sua voz parecia um pouco triste. –John, o único lugar que você vai ir é para seu quarto descansar. Você está parecendo um trapo, não dormiu nada essa noite. Ficou o tempo todo nessa sala lendo livros e mais livros.
– Ok. A senhorita que manda. – Em um tom um pouco mais baixo John resmungava. – Às vezes acho que quem manda aqui é ela e não eu.
–Não adianta resmungar é tudo culpa sua. Você comeu alguma coisa hoje mocinho? – John caminhava até a porta e a abria para a garota passar. – Ainda não consegui comer nada, não sai nem por um minuto dessa sala, quer dizer, bem, apenas para ir ao banheiro. – A garota fica um pouco corada ao ouvir aquilo, mas a raiva logo toma conta quando ela o ouve rindo.
Os dois caminhavam juntos para fora do bloco onde se encontravam, quando uma forte tontura toma conta de John, que o deixa com a vista negra e acaba usando a garota para apoiar-se, deixando-a ainda mais preocupada.
–John, o que aconteceu? Você está bem? – Sua voz era de grande preocupação e um pouco de raiva, pelo desleixo que ele tinha com sua própria saúde.
–Fique tranquila, estou bem. Foi apenas uma tontura, provavelmente porque não dormi. Acho que te deixo muito preocupada né?! Mas não precisa ficar. – Ele se afasta e continua a caminhar sozinho.
–John, para onde você está indo? – Kris ia em direção a ele, estava preocupada sabia que não podia deixar ele sozinho.
–Estou apenas indo para meu quarto, fique tranquila. Quero apenas descansar um pouco. Você poderia buscar um pouco de comida e leva-la para mim no quarto? – Mesmo falando com ela, ele não parava de caminhar.
–Sim, já eu levo. Espero que não saia de seu quarto, se eu chegar e eu não ver você, tu vai me pagar.
John ria baixinho sem deixar que ela percebesse. – Ok, estarei te esperando. Você realmente gosta de mandar, mas não sei o que seria da minha pessoa sem você.
Após conseguir o café da manhã, Kristin chegava ao quarto de John e o encontrava estirado na cama dormindo. Parecia que do jeito que chegou, ele se jogou na cama. Ela riu baixinho para que não o acordasse e deixou a comida em cima da escrivaninha, saindo logo em seguida para ir a sua aula.
O relógio marcava 22H55. John e Kris se encontravam no estacionamento do Athens Lunatic Asylum, os dois caminham para o ponto de encontro com Will que já estava esperando. Eles se encontram e apenas se cumprimentam com troca de olhares. John parecia não gostar nem um pouco de William, ele era o primeiro a sair caminhando para os fundos. Kristin carregava com ela uma planta do Asylum.
–Vamos entrar pelo pavilhão 205, é de acesso mais fácil que os demais. – Kristin não tirava os olhos da planta nem por um minuto para olhar aonde pisava, ela tinha total confiança em seu andar.
–Meu rapaz, não quero ouvir nenhum grito de mocinha ou sinal de medo, porque se nem a Kris tem medo imagina você assustado, seria o cumulo do cumulo. – Will engolia seco as palavras de John. Elas eram ásperas e sarcásticas, e com isso ele tentava de todo modo esconder mais ainda seu medo de estar ali com eles.
–Vamos nos separar. Garoto, você vem comigo. Kris, você irá sozinha, você sabe o que tem que fazer. – Sua voz ainda continuava ríspida, eles se separam e cada um vai para um andar do Asylum procurando por pistas.
Kris estava ainda no primeiro andar quando algo lhe chama atenção. Havia um barulho de vozes vindo da sala que se encontrava mais a frente dela. Ela então começa a andar lentamente para não fazer barulho, e é então que um som alto de algo caindo e em seguida um grito de garota faz com que ela se aproxime logo e abra a porta. Ela se depara com uma cena horrível. Quatro pessoas levantadas e uma caída ao chão toda ensanguentada.
–O que aconteceu aqui? – Ela olhava brava para os quatro ali e se aproximava da pessoa que estava no chão. Ela se agacha e segura o pulso do rapaz, mas ao relar, algo estranha acontece. Ela se via no mesmo local, mas tudo estava claro e limpo, ela parecia ter regressado ao passado, Kris se levanta e começa a caminhar pelo local para entender o que estava ocorrendo. Pessoas passavam a sua volta, mas ninguém notava sua presença, parecia um dia comum naquele local.
Ao chegar ao final de um dos corredores havia uma grande porta dupla branca, de dentro dela podia se ouvir muitos gritos de agonia e dor. Ela se aproximava lentamente quando algo a chama atenção, eles passavam com uma maca ao seu lado e o rapaz que ela havia visto antes de entrar naquele sonho estava preso e acorrentado a ela. Kris resolve seguir a maca que passa pelas portas e para em uma pequena divisão que havia dentro daquela sala, próximo a maca havia uma mesinha com vários instrumentos cirúrgicos.
A sala era grande, não havia janelas, apenas luzes fracas e pequenas repartições. Kris não conseguia ver muito bem o que tinha, mas podia ouvir outras pessoas gritando e pedindo por ajuda. Seu coração acelerava a cada momento, deixando o medo à flor da pele. Ela se aproxima mais da mesinha, nela havia alguns bisturis, itens que se pareciam com picadores de gelo e outros que ela não conseguia identificar. A luz sobre ela piscava, parecendo que a qualquer momento queimaria. Um pouco abaixo da luz podia se ver um quadro de uma santa.
Kris volta seu olhar ao rapaz. Ele parecia estar desacordado, ela levava sua mão ao braço direito do rapaz, mas acaba se assustando com um grito que o rapaz soltará de repente. Logo o pequeno lugar ia se enchendo de pessoas, ali se podia contar por cima em torno de seis a oito pessoas. Uma das pessoas era um médico, que se aproxima e cochicha algo para o rapaz que começa a se debater e gritar. Sua boca era fechada com um pedaço de pano que deixava seus gritos mais abafados.
Enquanto o homem dava ordem aos demais, Kris observava atentamente o médico que pegava um dos picadores de gelo e colocava por dentro de um dos olhos do rapaz que se debatia mais ainda com a dor. Ela não tinha reação alguma, seus músculos estavam rígidos, suas pernas não respondiam e seus olhos tentavam desviar da cena, mas era impossível.
As demais pessoas voltavam e pegavam alguns bisturis da mesa e começavam a furar o garoto por todo corpo, o único pensamento de Kris era de fugir e gritar, mas nem sua voz conseguia fugir de sua garganta.
O sangue do rapaz começava a escorrer por seus olhos. Por conta de seu pânico, Kris não havia notado a segunda pessoa perfurando os olhos dele. Outra pessoa lentamente colocava o picador em seu nariz. Lágrimas começavam a escorrer pelos olhos da garota que não podia fazer nada pelo rapaz, os gritos dele arrepiavam a sua alma, mas aos poucos o som ia se sessando e o rapaz já estava perdendo suas forças. Kris começava a chorar, até que acaba caindo ao chão e ficando sentada com suas mãos a face. Era uma dor horrível ver aquilo e nem ao menos conseguir fazer nada para ajudá-lo.
Ao tirar suas mãos do rosto ela já estava de volta ao normal. Ela observava em silêncio a todos e ainda segurava o pulso do rapaz morto. Então, ela o solta, mas o rapaz que estava morto segura seu pulso com força e abre seus olhos que estavam brancos e sem vida. Kris se assusta e no ato de tentar se soltar ela perde o equilíbrio, mas antes de cair ela é pega por John.
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