Um desejo de ódio – OneShot

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Mais um dia se iniciava naquele reino estranho, onde animais tinham traços humanos, muitos até andavam em duas patas…um lugar totalmente estranho para eu que estava acostumada a ficar apenas com meus corvos e fechada em minha biblioteca. Era um reino aonde os mais fortes e os entendedores de magia podiam andar em forma completamente humana, um reino onde muitos estavam ali pela sua liberdade e diversão.

Era uma bela manhã, ainda me mantinha deitada na cama e olhando para o teto, estava com pressentimento de que algo ruim aconteceria neste dia, podia sentir uma presença hostil na casa, como se aquela presença fosse algo a mais para mim, mas não conseguia identificar corretamente a presença. Logo pude ouvir uma grande agitação na casa e ao longe ouvi uma voz conhecida, a voz do Rei…o que ele estaria fazendo em minha casa logo pela manhã, geralmente ele tinha costume de vir logo após o café da manhã, mas hoje ele estava antecipado em seu horário habitual.

Ouvia o som do bater na porta de meu quarto era um som apreensivo e logo sua voz suave era ouvida.

– Senhorita ele a deseja ver… – Era interrompida e logo a porta se abria, se levantava imediatamente ficando sentada na cama, olhava aquela silhueta entrando no comodo, era o próprio rei e mantinha aquele sorriso doce nos lábios, parecia ser um ser totalmente inofensivo, mas de inofensivo era apenas o seu sorriso.

A serva saia em passos rápidos do local e fechava a porta, não dizia nenhuma palavra antes de sair, mas pude notar em seu rosto que estava preocupada. Naquele momento ainda não estava vestida adequadamente para receber o rei, usava uma simples camisola negra de seda que ia até meus pés. Passava as mãos pelos meus olhos e assim dizia com uma voz de sono.

– Bom dia jovem rei, o que desejas para estar tão cedo em minha casa.

Ele ainda mantinha aquele sorriso doce em seus lábios e se sentava próximo a mim na cama, ficando bem próximo e sua voz era gostosa de se ouvir, era como uma melodia aos meus ouvidos.

– Sinto sua falta, por favor volte ao castelo, fique comigo.

Suspirava e logo fechava meus olhos por um momento, ouvir aquilo era um tanto bom, mas sabia que só traria mais tristeza, abria os olhos e o encarava fixamente e tentava sorrir para o deixar alegre, mas sabia que seria inútil aquele sorriso, era como dar apenas um pouco de comida a um animal faminto, ele sempre continuaria com mais fome e com isso necessitaria de mais palavras doces para o alimentar.

– Sabe que não posso.

Me surpreendia com a atitude dele que se aproximava de meu rosto, o toque suave de seus lábios ao meu, faziam minha respiração ficar pesada, sentia um frio na barriga e sensações que nunca saberia descrever com perfeição, logo se tornava um beijo de paixão e fortes desejos, algo tão inexplicável que a cada toque em meu corpo, trazia uma sensação tão maravilhosa, que mal conseguia dizer o porque daquilo acontecer e porque daquele amor por ele, esse amor apenas machucava.
Todo aquele desejo um pelo outro, não ficaria apenas em meros beijos se tornaria um amor consumado…Não podia deixar que se tornasse consumado, podia sentir a presença hostil, me fazendo sentir mal como se estivesse fazendo algo errado..sabia que não podia continuar ali com ele, era errado. Me afastava dele e o olhava com certa tristeza e um leve desgosto por estar fazendo aquilo, queria continuar mas não podia.

– Não podemos continuar com isso, está errado, não é certo… Sabe que isto pode lhe causar um problema maior.

Notei na face dele e e seu olhar que ele não aceitava a ideia de largar aquele momento, mas ele podia notar a tristeza em minha voz. Mesmo ele não querendo, logo se levantou da cama e saiu a passos rápidos como se não tivesse gostado de ter que sair e parar tudo, notava ele retirar do bolso um tipo de telefone e ligar para alguém, ele se afastava do quarto e ia para fora, mas podia ouvir a voz dele ali do quarto.

– Bom dia milady, gostaria de lhe convidar para um passeio e depois tomarmos um chá.

Sentia meu coração apertar e doer com cada palavra dita por ele, não conseguia entender tal motivo para aquilo, me levantei da cama sentindo como se não tivesse chão para pisar e fechava a porta. Respirei fundo e resolvi me trocar, não podia ficar o dia todo na cama, tinha meus afazeres do dia a serem feitos, como sempre colocava um de meus vestidos negro de veludo, que ia até o meu joelho, deixava o cabelo preso em dois rabos de cavalo lateral, parecia uma verdadeira boneca de porcelana, todo o vestido era adornado por detalhes delicados e mostrava que era de um cargo alto, que fora recebido do próprio rei. Me aproximei da porta e antes de tocar na maçaneta respirei fundo e logo a abria, ele já não estava mais em sua área de visão, mas logo notava minha serva vindo correndo em minha direção.

– Minha querida, o rei disse que voltará na hora do almoço e que não é para você se preocupar com mais nada.

No restante daquela manhã as palavras que havia ouvido dele no telefone repassavam em minha mente a todo momento, na mesa do café, olhava para seu servo a frente e notava que ele era a presença hostil naquele momento, mas ele parecia estar perdido em seus pensamentos, estava perdido em um mundo de sonhos e totalmente desligado deste mundo. O dia passava de um modo preguiçoso e lento, o horário que ele havia dito já passará e ele resolvi aparecer quase nos últimos raios do sol.

Estava sentada em minha mesa do lado de fora da casa tomando um pouco de chá, quando o noto chegar ele estava sozinho naquele momento, mas logo uma mulher não muito mais alta do que eu aparecia, ela tinha longos cabelos brancos e uma terceira pessoa logo surgia, era bem mais alta e parecia ser a dama de companhia da garota de cabelos brancos. Fiquei os encarando tentando entender o que se passava ali, mas não queria deixar um único pensamento invadir minha mente, não queria o que poderia estar por vir daquele situação estranha. Estava em um tipo de transe por conta dos pensamentos, mas logo fui tirada do transe com a voz doce dele.

– Vim lhe apresentar alguém, já que é minha conselheira dirá se é a pessoa certa.

Parecia que ele fazia aquilo apenas para me machucar, me levantei em silencio da mesa e me retirei para outro canto da casa, tinha toda a certeza que ele viria atrás como sempre, não aguentava olhar para o rosto do rei…por um breve momento olhei para trás enquanto ia me retirando e podia ver ele abraçando a garota e lhe dando carinhos, balancei minha cabeça e procurei pela outra varanda aonde estavam meus livros espalhados pelo chão e me sentei, desta vez havia me engano ele não viera atrás de mim.

Fique sozinha por um bom tempo em meio as livros, a escuridão já tomava conta do céu, algo estranho estava acontecendo, era como se fogos de artifícios estivesse sendo queimados próximos a minha casa, eram lindos de ficar se admirando, todos tinham formato de animais alguns até pareciam dar adeus, era como magia, acabei me perdendo novamente em meus pensamentos enquanto observava os fogos, mas ao acabar voltava meus olhos para a frente e notava a presença de vários súditos em frente a minha casa, ficava totalmente séria com aquilo, sabia que não era coisa boa, via todos se movendo e abrindo um caminho ao meio deles logo podia ouvir os comentários que vinham deles e logo um gritava.

– Olhem é a nossa nova rainha.

Sentia alguém vir por trás de mim, olhei rapidamente para trás e ficava surpresa ao olhar que era o Rei, ficava o olhando com um olhar sério e de que não estava gostando de ver aquela multidão toda e ele ali em sua casa. Notei que ele parecia nem se importar com a minha presença ali e caminha em direção a mulher que parecia se divertir no meio daquelas pessoas estranhas, a voz do rei soava alto para que todos ali presente ouvisse o que ele tinha a dizer.

– Quero apresentar a todos a mais nova rainha…avisem a todos do reino que a festa do casamento será no final de semana.

Ficava surpresa, mas já imaginava que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde, em minha mente só passava um único pensamento, que nunca um rei ficaria com uma mera serva que não passava de uma simples conselheira. No fundo sentia que ele estava fazendo aquilo para tentar não criar mais problemas a mim, mas quem disse que aquilo não iria me causar mais problemas, senti meu coração arrasado, aquele amor que sentia por ele era como veneno sempre estava me fazendo mal, talvez fosse até melhor.

Passado apenas alguns minutos todos ali começavam a ir embora, voltando a ficar apenas os três ali em frente a casa, peguei três livros que estavam no chão de um modo aleatório, mas ao abrir o primeiro era um bem velho e estava quase se rasgando, era o conto do leão medroso, fiz uma cara de total decepção por pegar aquele livro em especial, sentia que o destino brincava com a minha cara, o joguei longe sem notar que ele havia caído no porão da casa. Enquanto mexia com os outros dois livros nem percebia que os três se aproximavam da onde eu estava. Mas logo uma voz feminina um tanto irritante me fazia olhar e notar eles.

– Irá participar do tornei, não é conselheira, ouvir dizer que entende muito bem de magias.

Meu olhar era sério e um tanto frio, assim como foi a minha resposta a garota de voz irritante.

– Não participarei de nada.

Mas ao mexer em um dos livros não percebi que um item caia de dentro dele, era um papel velho dizendo sobre o torneio e que iria participar dele, a garota da voz irritante pegava o papel e o lia apenas com os olhos mas logo dizia em um tom de deboche e ironia.

– Este papel diz que já está inscrita e parece que mais alguém deseja que participe deste tornei, será um amor secreto?

As duas garotas riam de um modo de deboche, suspirava fundo para manter a minha calma, balancei a cabeça como se tentasse expulsar o sentimentos de raiva e me levantava respondendo em um tom ríspido.

– Já falei, não participarei de nada.

Conforme fui me retirando da varanda podia sentir a alma do rei em tristeza, como se chorasse, era um sentimento de muita tristeza, mas nunca iria acreditar em tal sentimento vindo dele, sempre fora bem egoísta, nunca que ele tivera tempo para pensar em outras pessoas muito menos nela, olhava para trás e o via abraçando a garota e a beijando e dizendo palavras de conforto.  Desci para o porão para procurar o livro que havia caído, estava tudo tão escuro, mas já estava acostumada com o posicionamento das estantes de livros sendo fácil para andar por ali, ouvi a porta bater com força, subi as escadas imediatamente mas acabei esbarrando em algo, mas ao notar via que tinha esbarrado no jovem rei, minha voz saia de um modo sério e com raiva.

– O que quer?

– Quero que participe de tudo que tiver no reino, não a quero longe de mim, quero ao meu lado sempre.

Não me lembro da onde surgiu tanta força e ódio naquele momento, já estava em minha verdadeira forma uma mulher da mesma altura dele, segurei em seu pescoço com a mão direita e o coloquei contra parede, quase o sufocando, minha voz saia com um tom de muito ódio.

– Fique longe de mim…não o quero perto…você não merece meus conselhos, saia daqui e nunca mais volte, não quero mais ver a sua cara.

O joguei contra as escadas e em um pensamento rápido e de desespero me transformei em um corvo e desapareci diante a escuridão daquele ambiente, fiquei escondida atrás de uma das estantes que havia, lágrimas corriam por minha face, sentia um pedaço da minha alma quebrada e indo embora, uma dor insuportável, mas ao mesmo tempo um desejo de ter um ódio maior por ele, pois por mais que tentasse o odiar, meu amor por ele ainda era bem maior se sobressaindo sobre qualquer outro sentimento. Fiquei ali escondida até o dia amanhecer nem mesmo o vi ir embora.

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